O oceano e a tempestade disputavam o domínio da praia de Ledita na calada da madrugada. A areia branca desaparecia sob a escuridão úmida, açoitada por gotas pesadas. Gaivotas repousavam empoleiradas em pedras e corrimãos de madeira que cercavam a plataforma que ficava no centro, enquanto o vento norte trazia o cheiro salgado do oceano e fazia as lonas das cabanas estremecerem à beira-mar.
De dentro das árvores que circundavam a pequena enseada, surgiu uma figura masculina.
Seus passos lentos marcavam o solo encharcado — firmes, ritmados — e apagavam-se logo depois sob as gotas grossas da chuva.
O pátio de madeira tinha, ao centro, um chalé pintado à mão. Placas turísticas balançavam sob o vento, e um letreiro contornado por LEDs brancos pulsava intermitente:
“Praia Curta — Norte de Ledita.”
O visitante manteve o capuz sobre o rosto.
As roupas estavam encharcadas, e o vento fazia o tecido bater contra o corpo co mo uma bandeira cansada.
Ele ergueu o olhar para o relógio central — parado às 3h30 da manhã.
A maré recuava lentamente.
Caminhou até o fim da ponte, onde o oceano se abria como um espelho negro.
De ambos os lados, um longo caminho de pedras marrons, perfuradas pela violência das águas, servia de escudo contra o avanço do mar.
O homem ergueu a mão nua. Gotas pesadas escorriam por seus dedos.
Em sua palma, formou-se uma pequena esfera de energia alaranjada — vibrante — envolta por uma fumaça densa e azulada que girava em silêncio, como um pequeno sol aprisionado entre dedos humanos.
O brilho refletiu na madeira molhada, transformando a ponte em um corredor de luz.
Com um gesto leve, ele lançou a esfera ao mar.
Ela correu pela superfície da água, criando um vórtice como se o oceano se curvasse ao redor dela, puxado para um destino invisível.
O homem fechou o punho. E abriu.
Dois pescadores, mais adiante, se assustaram com a distorção na água.
O barco balançou. Um deles olhou para a plataforma de madeira.
— O que diabos foi isso? — murmurou, a voz carregada de medo.
O outro, ainda tentando se equilibrar enquanto segurava a vara de pescar e apoiava-se no amigo, finalmente avistou a figura na ponte.
— Ei! Ei, você aí! — gritou.
Eles deixaram as varas cair e correram pela madeira molhada.
— O que diabos foi isso, seu maluco?! — berrou um deles, ofegante.
O homem virou-se devagar.
Seus olhos, antes ocultos sob o capuz, agora ardiam em um âmbar profundo — uma cor viva, pulsante, quase hipnótica.
Os pescadores empalideceram.
— Deus do céu… os olhos dele… — murmurou um deles, aproximando-se instintivamente do amigo.
O homem estalou os dedos.
A chuva parou.
Cada gota ficou suspensa no ar, congelada, cintilando como poeira dourada sob a luz invisível.
Os pescadores tentaram correr, mas o chão do barco parecia prendê-los.
No barco, os pescadores olhavam, confusos, para a cena — quando algo no horizonte capturou sua atenção.
Uma coluna de energia laranja irrompeu do mar.
A água se abriu em um círculo de luz, como se o oceano tivesse sido rasgado por dentro. O clarão transformou a noite em dia.
O vento varreu o litoral, levantando areia e destroços. Centenas de peixes foram arremessados junto com a onda, caindo sobre a praia como uma chuva viva.
Gaivotas foram lançadas ao ar. As luzes piscavam. O relógio central apagou-se. A plataforma de madeira vibrava sob os pés, e as árvores ao redor perdiam folhas que corriam rumo ao vendaval. O visitante apenas observava.
Imóvel.
Enquanto os pescadores, agora no chão entre as pedras depois de serem arrastados, se protegiam com os braços.
Então a chuva voltou.
E a luz desapareceu.
Restou apenas o som do oceano.
Os pescadores continuavam paralisados, sem saber se deviam correr… ou rezar.
O visitante virou-se lentamente. A água escorria do capuz. O âmbar ainda ardia em seus olhos.
E desapareceu.
Num sopro de vento, os pescadores recuperaram os sentidos.
Entreolharam-se, atordoados, os rostos pálidos manchados de areia e sal. Um deles piscou repetidas vezes, tonto, tentando forçar o mundo a parar de girar.
— O que… o que diabos foi aquilo? — murmurou, tateando a própria nuca com os dedos trêmulos, o rosto refletia agonia do momento. — Minha cabeça parece que vai rachar ao meio.
O outro segurava um peixe ainda debatendo-se entre as pedras.
O chão ao redor deles estava vivo. Centenas de escamas prateadas reluziam na escuridão, enquanto peixes agonizavam e saltavam por toda a extensão da praia destruída.
— Sei lá, cara…, mas olha pra isso! — Ele respondeu, a voz esganiçada.
Começou a agarrar as carcaças trêmulas com desespero, jogando-as em direção às redes, enquanto um riso frouxo e nervoso escapava pelos lábios.
— Você por acaso tá cego?! Viu a detonação espontânea lá no mar? — Disse pressionando as têmporas com ambas as mãos. — A gente precisa dar o fora daqui. Agora!
O amigo parou. Ergueu o rosto, o olhar maníaco fixo no companheiro.
— Deixa de paranoia. Nós estamos respirando e o mar acabou de vomitar uma fortuna no nosso colo. — O sorriso dele era torto de alegria. — Presentes dos céus… ou das profundezas… sei lá.
E, num momento de loucura e felicidade, beijou a cabeça fria e úmida do peixe que segurava.
O estalo foi seco. O amigo lhe acertou um tapa forte na orelha, sacudindo-o de volta à razão.
— Para de ser imbécil! — rosnou. — Olha ao redor! Você não tá vendo a destruição que essa coisa causou?
O outro largou o peixe, limpando a boca no antebraço, com ar de deboche.
— E você nasceu ontem, por acaso? — Cruzou os braços, ignorando o caos ao redor.
— Não, né, seu pescador de pedra! Mas eu nunca tinha visto isso pessoalmente!
— Então… cala a boca e vamos enfiar esses nos baldes. Nossas mulheres nos esperam. — O tom dele baixou. — E a gente precisa sumir antes que as autori-dades baixem aqui.
A pressa, no entanto, morreu ali mesmo.
O zumbido distante de sirenes rasgou a madrugada. Feixes de luzes vermelhas e azuis começaram a manchar a neblina da estrada, aproximando-se rapidamente da orla.
Eles congelaram; os peixes escorregaram das mãos.
E, sem que nenhum dos dois percebesse, o céu acima deles já havia retornado ao escuro absoluto, como se o oceano tivesse acabado de despertar de um sonho antigo, apenas para voltar a dormir outra vez.
O relógio marcava 5h30 da manhã quando Rhaelles sai de sua casa e fecha a porta atrás de si. O ar ainda carregava o frio da madrugada, e Ledita dormia sob uma neblina leve que subia do mar.
Ele ajustou o moletom com capuz, conferiu o relógio digital no pulso e começou a correr.
Com quase um metro e noventa, ele avançava com a precisão de quem conhecia cada passo do próprio corpo. Os olhos castanhos permaneciam atentos, sempre calculando. Sob o capuz, os cabelos escuros e ondulados desapareciam, enquanto gotas de suor deslizavam pela pele clara.
Passos precisos. Ritmo constante.
O celular vibrou e uma mensagem apareceu na tela.
Trebay: “Vai dar tempo de te buscar no terminal amanhã, às 7h25 mais ou menos.”
Ele respondeu sem parar de correr.
Rhaelles: “Tudo certo. Ainda tenho uns papéis pra assinar hoje à tarde.”
Trebay: “Vai ser bom te ver de novo, Rhaelles.”
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
Ele acelerou e desapareceu no nevoeiro da manhã.
Enquanto avançava pela orla, campainhas de bicicletas ecoavam sua-vemente pela rua. Pássaros marinhos caminhavam cedo, esperando que alguém poupasse o esforço de encontrar comida. As ondas batiam contra as pedras, rasgando o silêncio da cidade que despertava devagar.
O vento passava firme pelos coqueiros, fazendo-os balançar em ritmo quase hipnótico. O cheiro de maresia misturava-se ao perfume doce dos jardins das casas.
Ledita era conhecida por suas praias largas — molduras vivas de um litoral que parecia pintado à mão.
As casas de madeira, com varandas floridas e painéis coloridos, lembravam traços de um artista inspirado.
Rhaelles respirou fundo.
O exercício matinal era sua única forma de sentir o mundo ainda silencioso.
O corpo corria.
Os pensamentos, não.
A chave girou na fechadura as 6:30 da manhã indicando seu retorno. O som metálico ecoou pela casa pequena. Rhaelles entrou, tirou os tênis úmidos e os deixou numa bandeja ao lado da porta. No cabide, um capuz preto pingava lentamente — o mesmo que usava nas madrugadas de chuva.
O lugar era simples. Funcional. Uma TV pequena sobre a cômoda. Um laptop fechado. Roupas dobradas no sofá.
A cozinha americana se misturava à sala. O cheiro de café ainda pairava no ar.
Um corredor estreito levava ao banheiro e ao quarto em silêncio.
Ele ligou a televisão.
O noticiário preencheu o ambiente.
A repórter, com o cabelo ainda úmido, falava em tom tenso:
— Algo misterioso aconteceu novamente nessa madrugada. Desta vez foi no litoral norte de Ledita. Uma onda de energia surgiu no centro do mar, alterando sensores magnéticos e radares ao longo da costa.
Imagens aéreas mostravam o oceano escuro.
— Especialistas afirmam que o fenômeno não parece natural. Físicos e geofísicos investigam se poderia tratar-se de um portal… ou de algum tipo de energia desconhecida.
Na tela, os dois pescadores apareciam, um deles sorrindo, mas com os olhos ainda inquietos.
— A gente viu tudo! — dizia um deles em tom mais sério. — Era uma luz alaranjada saindo do mar… coisa de outro mundo! Espero não ver mais nada parecido, pois achei que meu fim estava a vir.
O amigo risonho o empurrou, tentando se aproximar mais da câmera.
— Pelo menos foi bom pra gente! Esses peixes aqui vão alimentar minha família por semanas!
Ele ergueu a rede cheia de peixes prateados, que reluziam sob a luz da filma-gem.
Rhaelles observava em silêncio, encostado na parede.
Os cabelos ainda úmidos do treino escorriam discretamente pela testa.
Com expressão séria, aproximou-se da TV.
Desligou-a.
O controle repousou sobre a mesa com um clique seco. Seguiu para o banheiro.
O toque do celular ecoou pela casa antes mesmo que terminasse de se enxugar. O som parecia ampliar-se conforme ele abria a porta e se aproximava do aparelho.
Pegou o smartphone sobre a cômoda.
“Polícia de Ledita” piscava na tela.
Atendeu de imediato.
Do outro lado, uma voz feminina, firme e profissional:
— Bom dia, senhor Rhaelles Agnácio. Me chamo Melissa Caranega, secretária do gabinete do posto de comando.
— Sua reunião foi remarcada para as nove da manhã de hoje. Solicitaram sua presença com identificação, distintivo e arma registrada. Seus documentos serão atualizados para o novo destino, Cartókia.
Enquanto secava o cabelo com a toalha, ele respondeu com naturalidade:
Bom dia! Estarei lá em ponto. Obrigado.
Desligou.
O silêncio voltou a preencher o ambiente.
Entrou no quarto organizado, abriu uma gaveta com precisão quase ritual e retirou um estojo de relógios.
Escolheu um. Prendeu-o no pulso.
Observou o reflexo por um instante.
Respirou fundo.
Tudo nele seguia uma lógica interna: tempo, postura, silêncio.
Nada fora de lugar.
Vestiu roupas sociais com a mesma exatidão.
Antes de sair, conferiu rapidamente o capuz preto pendurado no cabide. Ainda úmido.
Memorizou o detalhe.
Saiu.
Rhaelles entrou no off-road adesivado com o emblema da polícia local, ligou o motor e deixou o veículo deslizar pela estrada molhada.
Durante o trajeto, retirou de uma sacola um sanduíche simples e deu uma mor-dida curta. O café quente equilibrava o frio da manhã.
A cena era comum.
Mas nele, nada era comum.
Saiu do veículo, descartou a sacola no lixo e atravessou o corredor principal.
O portão ainda carregava a umidade da madrugada.
Na recepção, uma jovem atendente ergueu os olhos e sorriu.
— Bom dia, soldadinho… Vai fazer falta por aqui, Rhaelles.
Ele ajustou discretamente o cinto.
— Nunca é um adeus.
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
No saguão, policiais assistiam ao noticiário sobre o incidente na praia.
Imagens da “onda alaranjada” preenchem a tela.
— Deve ter havido falha nos sensores magnéticos e plantaram essas imagens.
— Ou experimento científico que deu errado…
— Por que eles iriam fazer isso no meio do mar, doido…
Rhaelles passou sem comentar.
Um dos soldados o avistou e se levantou.
— Rhaelles! Eu ia te procurar antes de você ir embora, parceiro!
Abraçou-o com força.
Rhaelles retribuiu com firmeza contida.
— Vou sentir falta do café que você faz.
O homem riu, batendo no ombro dele.
— Na cidade grande você encontra melhor.
Rhaelles apenas assentiu.
Sabia que não era verdade.
O riso dos policiais dissolveu-se no burburinho do saguão.
Por um instante, tudo parecia normal.
Às 8h59, Rhaelles entrou na sala de reuniões.
O ar ali era mais frio que no corredor. O cheiro de café recém-passado mistu-rava-se ao couro e ao metal polido.
De pé junto à mesa central estava um homem imenso — careca, barba grisalha perfeitamente aparada. Vestia camisa social branca com o emblema da unidade no ombro, calça preta alinhada e um relógio de ouro que capturava a luz do teto.
Na tag metálica, lia-se:
Coronel Brastan.
Mesmo sem farda de combate, sua presença era de aço.
À direita, o general Palone deslizava os dedos sobre um holograma de relatórios.
Ao fundo, o general Virono, de voz grave e olhar afiado, observava, com os braços cruzados, encostado ao painel luminoso.
Quando Rhaelles entrou, Brastan inclinou levemente a cabeça.
— Soldado Rhaelles Agnácio.
— Senhores.
Virono aproximou-se primeiro.
— A transferência foi aprovada. Seu destino será Cartókia, setor leste. Precisam de disciplina. E de um histórico… limpo.
Ele percorreu o dossiê com o olhar.
— O seu é impecável.
Ergueu os olhos.
— Estará sob o comando da Tenente Letícia Avelar. Exigente. Rigorosa. Difícil de agradar. Mas talvez você seja adequado.
— Compreendido, senhor.
Virono esboçou um meio sorriso — algo entre um teste e uma aprovação.
— É curioso que nunca tenha buscado promoção. Capitão. Tenente. Talvez coronel… ou mais.
Silêncio.
— Homens como você costumam almejar mais.
Rhaelles sustentou o olhar.
— Faço o que é necessário.
Palone interveio, com tom mais leve:
— Cartókia é implacável. A hierarquia é dura. E os holofotes… não perdoam. Mas é o lugar certo para quem deseja ser notado.
— Estarei pronto para servir.
Brastan finalmente avançou, sua sombra projetando-se sobre a mesa.
— Ledita vai sentir sua falta, Rhaelles.
Estendeu a mão. O aperto foi firme. Breve. Decisivo.
— Considere isso um novo começo. E um conselho: em Cartókia, ouça antes de agir.
Virono deslizou o documento sobre a mesa.
— Assine aqui. Testemunha: Coronel Brastan.
A caneta riscou o papel.
O som ecoou no silêncio controlado da sala.
Quando terminou, Virono apenas assentiu.
— A partir deste momento, você está sob jurisdição de Cartókia. Apresente-se amanhã às nove em ponto. E lembre-se… Ledita observa seus filhos, mesmo quando partem.
Rhaelles prestou continência. Virou-se e saiu.
A pesada porta de carvalho fechou-se às suas costas com um clique seco, selan-do a sala.
No corredor vazio e frio, ele afrouxou a postura apenas um milímetro e inspirou profundamente. O silêncio do corredor era tão fino que não carregava ecos. Depois de alguns passos pelo corredor… ele parou por um instante concentrando sua atenção para a sala que acabara de sair.
Dentro da sala, Virono voltou-se para Brastan.
— Você sabe que a ordem veio do Superior.
Brastan manteve o olhar fixo na porta fechada.
— Sei.
Virono completou, em voz baixa:
— Não gosto da ideia de ele sair daqui. Mas quero que o observem.
Brastan assentiu.
— Conte comigo, general.
Dentro da sala, o silêncio permaneceu por alguns segundos após a saída de Rhaelles.
O general Palone respirou fundo e abriu a gaveta da mesa. De lá, retirou um dispositivo eletrônico fino — um charuto metálico. Trocou o cartucho circular com precisão e o encaixou. Uma névoa leve escapou automaticamente.
Ele soltou a fumaça devagar.
— Ele é disciplinado… mas às vezes desaparece.
Brastan permaneceu imóvel.
— Desaparece como? — perguntou, sem alterar o tom.
Palone fechou os olhos por um instante antes de responder.
— Faz o trabalho melhor do que qualquer um. Resultados impecáveis. Mas há lacunas. Aparelhos retornam quebrados. Rondas demoram mais do que o previsto. E sempre há uma explicação técnica plausível.
Brastan inclinou levemente a cabeça.
— E vocês verificam?
— Sim. Chip danificado. Falha real. Nada forjado.
Silêncio novamente.
— Ainda assim — completou Palone — algo não bate.
Palone manteve o olhar fixo na porta.
— Ele nunca erra.
Virono respondeu baixo:
— Homens que nunca erram… costumam esconder algo maior.
A fumaça dissolveu-se no ar frio da sala.
Apos ouvir tudo, Rhaelles retomou a caminhada e empurrou a porta de saída do prédio.
O ar úmido do litoral bateu em seu rosto.
Ao fim da tarde o off-road parou diante de uma casa branca de madeira, com detalhes amarronzados desgastados pelo sal do mar.
Rhaelles não bateu à porta.
Subiu pela escada lateral.
PArecia conhecer o caminho.
Na varanda dos fundos, o oceano batia suavemente contra as pedras.
Um homem de cerca de oitenta anos balançava lentamente numa cadeira, fumando um bituca com tranquilidade.
— Achei que o mar já tivesse te engolido, garoto. — A voz rouca saiu entre a fumaça.
Rhaelles esboçou um sorriso de canto.
— Não dessa vez, Gilson.
O velho o observou com olhos estreitos.
— Nem me lembro da última vez que te vi. Você continua jovem demais pra quem vive perto de tantos problemas.
Rhaelles ergueu uma sobrancelha.
— E você continua velho demais pra repetir a mesma piada.
Gilson gargalhou.
— Pelo menos o meu ainda funciona.
— Só se for pra falar demais.
A gargalhada aumentou.
Mas Rhaelles não acompanhou.
Gilson percebeu.
O riso cessou.
— Você tá preocupado.
Rhaelles manteve os olhos no pôr do sol.
— Não é preocupação. É… cálculo.
Fez uma pausa.
— Fui transferido. Cartókia. Amanhã.
Gilson jogou a bituca em um latão.
— E...? Você planeja essas mudanças há anos, não é algo novo.
— Eles pediram que me observassem.
O velho soltou a fumaça devagar.
— Então você está com medo de um coronel?
Rhaelles virou o rosto lentamente, mantendo os olhos presos no pôr do sol.
Gilson puxou outro cigarro do bolso e o acendeu com calma. Ele parou de rir. A tensão permanecia.
— Pensando no que isso pode trazer? — perguntou o velho, agora mais sério.
Rhaelles suspirou. Ele olhou para as próprias mãos. A pele parecia normal, perfeitamente humana, mas Gilson sabia muito bem da fogueira que ardia logo abaixo daquela superfície.
— Vou sentir sua falta, Gilson — disse Rhaelles, a voz quase engolida pelo vento e pelo mar. — Cartókia é cega. Aqui, na sua varanda, é o único lugar no mundo onde eu não preciso fingir que a Clanta está ardendo em mim.
O velho não respondeu de imediato. Ele apenas soltou a fumaça devagar, os olhos enrugados acompanhando o vaivém das ondas escuras.
— Hensio sabia do preço que essa energia cobra, garoto — murmurou Gilson, batendo as cinzas contra a madeira. — Quando ele me pediu para ser o seu avô postiço, não era para te proteger de generais ou de missões perigosas. Você sabe se cuidar melhor do que ninguém. Ele me deixou aqui para ter certeza de que você não se perderia na sua própria força.
O vento moveu levemente a cadeira de balanço.
— Se os seus instintos estão inquietos com essa transferência para o leste… então escute — aconselhou o velho. — Essa bússola meio quebrada que você tem no peito raramente erra. E talvez seja o grande momento que espera.
Rhaelles permaneceu em silêncio.
Pensando.
Depois, tirou dois charutos do bolso e estendeu um ao velho.
— Trouxe isso pro homem mais rabugento que conheço. O único que consegue falar mal da vida dos outros e ainda rir disso.
Gilson pegou o charuto, analisando-o com um sorriso enviesado.
— Por que não acende com os olhos, hein? Queima tudo de uma vez, já que é tão especialzinho.
Ele apontou o isqueiro com o queixo.
— Nesse aqui você não mexe. E outra coisa… se quiser conversar comigo, venha pessoalmente. Essa sua telepatia me dá vontade de ir ao banheiro.
Rhaelles soltou um riso curto.
— Relaxa. Hoje não vou usar nenhum poder. Quero aproveitar a única família que tenho.
Fez uma pausa.
— Vai que amanhã você morre de tanto fumar.
Gilson gargalhou — até que, por um segundo, a expressão mudou.
— Se eu morrer… você me traz de volta, não é?
O silêncio pairou por um instante.
Rhaelles sorriu de lado.
— Talvez.
O velho tragou o charuto com calma.
— Então tenho ainda mais motivo pra fumar.
Os dois riram.
O som das ondas misturava-se à fumaça que subia lentamente para o céu avermelhado.
O sol mergulhava no horizonte.
A pergunta interna o consumia, os extintos o alertava que algo maior já se movia além da linha do mar.
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